Hoje eu não quero só flores. Quero seu respeito!

postado em  •  8 comentários

Este post faz parte da blogagem coletiva especial do “Dia Internacional da Mulher” promovido pelo Rotaroots, um grupo de blogueiros saudosistas que resgata a velha e verdadeira paixão por manter seus diários virtuais. Para ler todas as blogagens coletivas do Rotaroots, clique aqui. Quer participar? Então faça parte do nosso grupo no Facebook e inscreva-se no Rotation.

Vou começar este post contando uma história. Certa vez, uma menina estava passando pela rua acompanhada de sua prima, alguns anos mais velha, quando ouviu um homem falar “princesa”. Poucos meses depois, a mesma menina foi no mercadinho na rua de casa, usando um shorts jeans e uma camiseta, e voltou sob os olhares de um homem que parecia querer devora-la. A personagem desta história é real. A tal menina era eu, aos 11 anos, 1m70 e um corpo em desenvolvimento.

Ao longo dos anos tenho, infelizmente, colecionado outras situações desagradáveis que fizeram com que eu criasse um certo pavor de ser abordada enquanto estou na rua. Do cara que me encara no trem, o senhor com idade para ser meu avô tentar acariciar minhas costas, ao homem que me ficou me cercando quando saí para comprar um café na galeria ao lado da faculdade. “Você pediu, com certeza estava usando uma roupa provocante”, diriam os mais machistas. E eu respondo: não, uso na maior parte das vezes jeans e camiseta. Mas quer saber? Mesmo que estivesse com uma roupa sensual ou nua, ninguém (veja, eu disse ninguém) tem o direito de invadir meu espaço e nem de qualquer outra mulher. Nem de desrespeitá-la.

flawless

Mais triste ainda, é saber que muitas outras mulheres, engrossam este coro. Já ouvi (e acho que você também) de outras mulheres que elas nunca foram abordadas na rua porque não usavam roupas decotadas ou se comportavam de uma maneira digna para uma mulher. A pergunta é: quem definiu o que é digno ou não? Digno para mim, é uma pessoa que é honesta, que honra com seus compromissos e principalmente, respeita o outro, independente não só do seu sexo, mas também sua religião, raça, orientação sexual entre outras peculiaridades que fazem as pessoas serem diferentes uma das outras (graças a Deus, né gente?). Isso sem falar nos pequenos preconceitos que as próprias mulheres plantam no dia-a-dia. De chamar uma mulher sensual de “piranha” í  frase “toda mulher se veste para outra mulher” ”“mentira, eu me visto para mim mesma, e só.

Se hoje eu falo sobre esse assunto no blog, devo confessar que nem sempre foi assim. Durante muitos anos, moldei minha reação à estas situações a partir do que a sociedade machista pregava. Embora tivesse toda a educação e orientação aqui em casa, era difí­cil manter este pensamento quando eu botava o pé na rua ”“começando pelas cantadas e abordagens no caminho da escola ou da faculdade, quando na verdade eu só queria chegar ao meu destino sem ser incomodada. Por anos, acreditei que o fato de me sentir mal com estas cantadas estava associado com a minha extrema timidez e não saber lidar com “elogios”, principalmente de estranhos. Hoje sei que o problema não sou eu e que essa abordagem está longe de ser um elogio.

Ní“S NíƒO ESTAMOS SOZINHAS (FONTE: THINKOLGA.COM/CHEGA-DE-FIU-FIU)

NÃO ESTAMOS SOZINHAS (FONTE: THINKOLGA.COM/CHEGA-DE-FIU-FIU)

Devo parte disso a Internet e os movimentos que me fizeram entender que eu tenho o direito de poder viver minha vida sem ser julgada ou incomodada. Por conta de depoimentos de outras mulheres em blogs e redes sociais, ou campanhas informativas independentes como a “Chega de Fiu Fiu”, percebi que não estava sozinha. Que apesar de viver em um mundo extremamente machista, eu tenho o direito de me impor, exigir respeito e fazer da minha vida o que eu bem entender.

Este post é para lembrar você, leitora e leitor, que toda mulher tem o direito de ser ela mesma quando, aonde, como e com quem ela quiser. Não só no dia 8 de Março, mas em todos os dias do ano. Você não é um objeto, você é um ser humano que merece respeito, dignidade e liberdade para fazer o que quiser da vida. Tem o direito de ir e vir sem ser incomodada. Usar a roupa que você quiser usar sem receio de ser julgada. De dizer NÃO e NÃO QUERO sem ter medo das consequências. De sair com quem você quiser e fazer o que bem entender da sua vida sem se importar com que as outras pessoas pensam.

Sei que, infelizmente, essa é apenas uma gota no oceano entre todos os problemas que as mulheres lutam todos os dias para superar. Junto com isso, tenho mais uma porção de desejos: a de que não só eu, mas como todas as mulheres e outras minorias do planeta, possam viver da maneira que eles bem entendem. E espero que meus filhos e herdeiros usufruir de um mundo mais justo, digno e que respeitem uns aos outros.

Hoje eu não quero só suas flores, chocolates, sua poesia, seu cartão, seus parabéns. Eu quero também seu respeito vitalí­cio.

8 comentários em “Hoje eu não quero só flores. Quero seu respeito!”

  1. Yasmim Almeida às 21:07

    Hello Vic,
    Eu amei o seu texto,nunca tive duvida de que o machismo é uma tolice mas queria ter mais informações sobre isso,então comecei a pesquisar e amei o seu texto por que realmente fala uma linguagem simples e facil onde se pode facilmente entender as coisas.Eu tenho 15 anos,sempre ouvi minha mãe falar “senta como mocinha”,”veste uma calça pra ir no mercado” mas eu sei que roupa não importa os homens machistas mechem ate com quem esta de burca,basta que seja mulher,eu espero de verdade que um dia a sociedade possa mudar é complicado isso porque são costumes que nos acompanham desde sempre mais creio que um dia os homens tomem o seu devido lugar e percebam que a mulher não e fraca e sim tem direitos iguais.
    Obrigada por compartilhas sua opinião.

  2. Stella às 12:16

    Oiii
    adorei o post, perfeito.
    mas essas frase não são da Beyonce, são de uma ativista africana. Ela deu um discurso sobre feminismo em uma conferência e a Be usou como inspiração p música e colocou na introdução :))

    beijos

  3. Fernanda às 09:26

    Perfeito o post. Eu ganhei corpo rápido, com 12 anos, mas tinha cara de criança claro. E por muitos anos só usava camisetão bem largo com calça larga. Por que? Para me proteger dos "elogios" na rua. Me dava pânico. Hoje me dá raiva, e não sou nada educada com raiva, embora pela violência em que vivemos tento me segurar. Mas não devíamos passar por isso. Ontem mesmo, voltando pra casa umas 23h vi um rapaz correndo sozinho na rua. Sabe quando vou poder fazer isso? Eu não sei, mas NUNCA me vem a mente.

  4. Camilla às 10:22

    Se os homens soubessem que esse tipo de '"elogio" deles na rua, os tornam automaticamente toscos pra nós mulheres nao fariam mais isso.
    Quando eu tinha mais ou menos uns 14 anos, mudei pra uma cidade pequena, eu era novidade na cidade, e era horrível sair na rua, eu evitava de ir na padaria, porque odiava as cantadinhas de meninos que tinham desde a minha idade, até idade pra ser meu avô.
    A pior situação de todas, ocorreu 10 anos depois, no ano passado, quando num sábado eu parada num ponto de onibus, de uniforme, indo pro serviço, um cara, certamente vindo de alguma festa, bem bêbado, para o carro em frente do ponto de onibus, e começa a me perguntar se eu quero carona, pra onde eu estava indo, nunca senti tanto medo da vida, e logo que ele saiu, eu comecei a chorar, enfim, os caras fazem esse tipo de coisa ridícula, e a vida deles nao mudam nada com isso, mal sabem o que podem causar em alguem. A vida dele nao mudou, o pânico que senti, medo que fosse um bandido, enfim, nunca vou esquecer.

  5. Rodrigo às 22:37

    Pois é, Vivi. Sabe, eu acho que estamos em uma transição de comportamento. A informação está mais acessível a troca de ideias é mais constante, e isso tem feito muitas pessoas enxergarem o assunto de outra maneira. Assim como você, eu também seguia os moldes da sociedade machista.

    Acho que uma evolução de pensamento de massa ainda está por vir. Quero acreditar nisso.

    Pra mim uma coisa que até pouco tempo me incomodava era essa história de que "cantada é assédio". Achava um exagero isso. Mas aos poucos vou entendendo isso.

    Imagino como deve ter sido constrangedor você pré-adolescente sendo alvo dos olhares maldosos dos homens. Talvez tenha até sentido medo. Sei lá.

    Esse infográfico é interessante e revelador pra mim. Realmente não é fácil ser mulher. Mas concordo e sou do time de que as pessoas, mulheres ou minorias devem viver do jeito que quiserem, e que a escolha de cada um não dá o direito de outra pessoa chegar tocar e fazer o que quiser com ela.

    Mais respeito, é isso que precisa ser exercitado.

  6. nati às 17:22

    O que eu acho mais triste nesse machismo todo é ver mulheres propagando ele. Para serem "melhores" que outras mulheres, muitas preferem ficar do lado daquele que, na verdade, está contra todas nós. Gente, isso tem que acabar!!

  7. Priscila às 12:46

    Nossa Vic que texto ótimo! Assim como você também sofri muito na adolescência ao sair de casa a pé. Sempre trocava de roupa e dava preferencia por roupas largas, que não marcassem o meu corpo, se via um grupo de homens atravessava a rua para não ter que ouvir comentários idiotas. Também sempre associei isso a uma timidez extrema, apesar de não me achar tímida. Depois de muitos anos e muita terapia consigo sair de casa com "qualquer" roupa, mas claro que não menos atenta ou desconfiada dos demais. Amo ser mulher, mas infelizmente ser mulher não é fácil, alguns preconceitos são plantados em nós mesmas desde pequenas e não é uma tarefa simples se livrar deles. =/

  8. Ana Luísa às 11:10

    Ei Victoria :)
    Realmente o mundo precisa acordar que não precisamos de flores no dia 08 de março, e sim, de respeito o ano inteiro. Eu fico muito irritada com essas cantadinhas ridículas de rua. Minha vontade é responder algo grosseiro, mas e o medo? E o fato da gente ter medo já é um absurdo, claro.
    Beijos

Deixe seu comentário!