auto-estima

Parem com essa paranoia da beleza. Sério!

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Não vou mentir: sempre tive uma relação conturbada com a minha auto-imagem. A verdade é que, durante longos anos, lutei em busca de algo que eu não sou e jamais serei. Durante anos sonhei em ser baixinha, magrela, nada de peito, de bunda e da perna fina. Mas não era um sonho meu: eram um sonho dos outros que eu achei que deveria realiza-los. Era o sonho da minha professora de ballet que dizia que eu era muito alta para o resto da turma quando eu tinha 10 anos e 1m63. Era o sonho das pessoas que estudavam comigo aos 11 anos, em que as meninas ainda iam para a escola sem sutiã enquanto eu usava um sutiã 42. Era o sonho da minha mãe, que achava que eu tinha que emagrecer para usar calça cintura baixa. Era o sonho das minhas melhores amigas da adolescência, que usavam manequim 38 e almejavam um 34/36, enquanto eu usava 40/42 e me sentia a mais gorda das criaturas aos 15 anos, 1m70 e 62kg. E era o sonho de todos ao meu redor que eu fosse menininha, delicadinha, meiguinha, quando na verdade sempre fui desastrada e estabanada, sobretudo, por conta da altura (hoje já aceitei que é um traço da minha personalidade mesmo).

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Crescer nos anos 90 e comecinho dos 2000 teve seu lado bom e também, seu lado ruim e cruel. Se hoje existem milhares de bandeiras hasteadas nos dizendo que temos que nos aceitar como nós somos, naquela época isso era algo absolutamente raro. Na verdade, era ao contrário: dizer que gostava do que via no espelho era quase um pecado e você automaticamente ganhava o apelido de “tassia-achando” ou era considerada como metida e esnobe. E que eu, sem fazer parte do “padrão” que “eu” sonhava, comecei a admitir que eu era feia. Se as pessoas me elogiavam, diziam que elas eram cegas e eu era feia. Foi uma forma que eu encontrei de balancear minha “ausência de beleza” para parecer ser legal para as pessoas e poder chamar a atenção de outro jeito, ainda que eu estivesse me massacrando por dentro. Nessa época, ser modelo era a profissão dos sonhos e as revistas para adolescentes não falavam sobre outra coisa -e você poderia não querer ser, mas era induzida a parecer uma. A lógica do peso era a seguinte: no mínimo 20kg a menos do que os centímetros da sua altura. Por anos, sonhei em pesar 45kg, na minha cabeça perfeitos para o meu 1m70. Dietas malucas, ginástica em casa com os vídeos da Solange Frazão… tudo em vão.

O fato de eu ter criado uma “baixa auto-estima de estimação” nunca me impediu de gostar de me arrumar, de comprar roupas ou de usar maquiagem, pelo contrário: me ajudou a criar uma casca de antes (~~~~feia~~~~) e depois (~~~~arrumadinha~~~~). O problema é que chegou num nível que eu só me sentia bem quando estava maquiada e a ideia de sair de casa sem pelo menos uma base ou corretivo de casa era aterrorizante –mesmo com os vários anos de tratamento contra acne, algumas manchas ficaram misturadas as minhas sardas de sol, isso sem falar nas minhas olheiras e alergias de contato.

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Precisei de alguns anos aprendendo a lidar com a minha insegurança e minha baixa auto-estima para superá-la e, sendo sincera, ainda tenho um bom caminho pela frente. É um processo longo, uma coisa que nós vamos construindo dia após dia, até percebemos que o que é importante é nos sentirmos a vontade com a gente mesmo, e não para os outros. Afinal, quem carrega essa pele e se olha no espelho todos os dias não são as pessoas ao nosso redor, e sim nos mesmos. Se alguém está definindo como você deve ser, é porque tem algo de MUITO errado.

Nesta minha caminhada, já aprendi duas coisas importantes. A primeira é que, o fato de me sentir bem comigo mesma não impede de mudar o que me incomoda ou de recorrer a outros artifícios, como a maquiagem, dieta ou tratamentos estéticos, desde que seja uma mudança por motivos puro e simplesmente pessoais, e não externos. A segunda é que as minhas escolhas só importam à mim mesma, sobretudo, quando o assunto é aparência. Já tinha falado um pouco sobre isso neste post e devo reforçar que não existe nada mais libertador do que ser você mesma.

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Foi por estes e outros motivos que eu abracei a campanha do #StopTheBeautyMadness antes mesmo da Ari ter me convidado para publicar minha foto sem maquiagem. Nem todo mundo admite para si mesmo que é afetado por estes milhares de padrões de beleza e conduta, e muitas vezes, é por não perceber como isso o afeta. Desde que a campanha chegou por aqui, li alguns comentários dizendo que “só é afetado quem se deixa afetar” ou que é uma hipocrisia mulheres que usam maquiagem diariamente, sobretudo as ligadas em blogs de beleza e maquiagem, estarem aderindo a campanha e postando fotos sem maquiagem ou incentivarem outras mulheres a deixarem a maquiagem de lado, tudo isso em meio a tantos comentários positivos sobre a iniciativa e muitos depoimentos de pessoas que se sentem afetadas por estes padrões. Isso sem falar que com o passar dos dias e do crescimento da campanha, a proposta tem sido distorcida: se por um lado muitas meninas estão passando a mensagem para frente e incentivando amigas e seguidoras a fazerem isso, outras tem colocado isso como uma aposta valendo um prêmio, como se um rosto lavado e real fosse um castigo -e indo contra justamente, a proposta da campanha.

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Sobre expectativas, ligar o foda-se e ser você mesmo

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Entrei nos 28 anos e em 2014 com um pensamento único: a de que eu seria uma pessoa melhor. Não só melhor para os outros ou para o meio ambiente, mas principalmente para mim. Sabe, chega um momento da nossa vida que a gente cansa de abaixar a cabeça, de engolir sapos, de fazer algo por obrigação, de dar satisfaçãoo, de censurar nossa opinião, de muitas vezes em cima do muro para evitar a fadiga do desgaste. De viver em função do que as pessoas querem e esperam da gente, de nos definirmos a partir das expectativas alheias mesmo que a gente não perceba ou admita. Não deveria ser, mesmo, mas acontece. Comigo, com você, com seu vizinho ou com aquela pessoa que mora do outro lado do mundo.

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A gente cresce fazendo um auto-flagelamento a nossa coragem e amor próprio. Aprendemos que responder alguém é feio. Meninas aprendem que tem que se dar o valor, enquanto meninos aprendem o tempo todo que para ser ~macho~, tem que ser pegador. Crescemos lidando com os medos e frustrações daqueles que nos cercam, com os julgamentos dos coleguinhas de escola, principalmente se você não atender aos padrões que eles consideram como “certos”. Por outro lado, aprendemos que se olhar no espelho e se achar bonito é feio, que é coisa de “gente que se acha”. Crescemos o tempo inteiro achando que temos que ser perfeitos o tempo todo, que não podemos falhar, que precisamos necessariamente agradar todo mundo. Sem perceber, essas pequenas chicotadas diárias fazem com que a gente perca o brilho próprio, a vontade de viver, a nossa força interior.

Coincidência ou não (na verdade, acredito que não seja), ontem passando pela timeline resolvi assistir um vídeo compartilhado por um amigo no Facebook. O ví­deo era uma apresentação de Lizzie Velasquez, que ficou conhecida na Internet como “a mulher mais feia do mundo”, para o TEDx, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo disseminar ideias que merecem ser espalhadas.

Lizzie sofre de uma síndrome genética que faz com que seu corpo não retenha tipo de gordura. De tão rara, existem apenas 3 registros de pessoas com esta sí­ndrome em todo mundo. Tudo isso seria motivos suficientes para que ela se isolasse do mundo, certo? Errado. Lizzie transformou as ofensas e o bullying que sofreu durante a infância, adolescência e através da Internet em força para lutar, superar seus traumas e preconceito das pessoas. Provou o que todo mundo deveria saber: você não precisa ser linda ou ter um corpo estonteante para ser um humano incrível.

Convido você a tirar 15 minutinhos do seu dia para assistir o vídeo abaixo. Lencinhos e coração aberto são altamente recomendados:

Independente de padrões, aspectos fí­sicos ou comportamentais, a história de Lizzy é um tapa na cara de todos aqueles que permitiram, ainda que inconscientemente, serem definidos pelos padrõµes e desejos externos, pela projeção do que as pessoas esperavam de você -inclusive na minha. E de todo mundo que precisa, de alguma forma, acordar para a vida real.

PS: ainda dentro do tema “foda-se essa porra toda”, leitura altamente recomendada.