desabafo

Precisamos falar mais e mais sobre ansiedade

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Disclaimer: esse não é um post triste. É um post sobre esperança, incentivo e reedescobrir a si mesmo.

O ano era 2007. Eu tinha 21 anos, estava no quarto e último ano de uma faculdade na qual eu havia me arrependido ainda no final do quarto semestre. Se a pressão para arrumar um emprego antes de acabar a faculdade era grande, imagina para quem não havia conseguido sequer um estágio e de quebra, não se via exercendo aquela profissão? Mas como desgraça pouca é bobagem, no meio tempo ainda tive uma perda familiar –essa, um dia antes de apresentar meu TCC, feito com muito custo e sempre acompanhada de barras e barras de chocolate para aguentar a tortura mental de estar terminando algo que eu não queria seguir e de desapontar meus pais. Alguns meses, choros a qualquer hora (e lugar) do dia, nós na garganta, dor de barriga e vômitos sem nenhum motivo aparente, decidi buscar ajuda.

Cresci ouvindo que eu era “muito ansiosa”, o que durante muitos anos me fez acreditar que tudo era um traço da minha personalidade. Ouvi também que eu era tímida demais, que eu tremia ou gaguejava quando conhecia alguém ou precisava apresentar algo na frente de todos, que eu deveria me sentir mais segura (o que, diga-se de passagem, nunca aconteceu). Meus amigos diziam que eu era paranoica quando temia que algo de ruim acontecesse com alguém que eu gostasse –aliás, perdi a conta de quantas vezes me peguei batendo 3x na madeira da carteira escondida cada vez que esse pensamento me assombrava. Perdi a conta também de quantas vezes me senti culpada por algo que eu não fiz, das carapuças que vesti sem que coubessem em mim, das centenas de vezes que eu pedi desculpas sem ter feito nada de errado e sentia que só assim, meu coração teria aquela sensação de alívio. Das vezes que eu desisti de sair em cima da hora para ficar em casa, enquanto todos achavam que eu tinha furado porque estava com preguiça. Dos textos escritos e jamais finalizados por não achar que eles estavam bons o suficiente ou pelo medo do julgamento. Dos trabalhos que eu refiz milhares de vezes e ouvia de quem estava ao meu redor de que eu era perfeccionista demais. Das vezes que o coração disparava, a garganta fechava, o ar faltava, a pele arrepiava, os músculos tencionavam e eu chegava ao final do dia com dores nas bochechas porque eu estava mordendo-as por dentro. De não conseguir pegar no sono ou relaxar porque minha cabeça simplesmente não para de funcionar. Das outras milhares de vezes que, bastava algo dar errado para eu estar caçando pela casa um doce –e da vez que eu, num ato de desespero por não ter nada parecido em casa, comi uma colher de açúcar.

Há 10 anos descobri que toda essa angústia tinha nome e sobrenome: transtorno de ansiedade. E então, tudo aquilo que eu havia vivido durante toda minha vida e o que eu viveria em seguida, começou a fazer sentido. Foi libertador, como um pássaro que sai da gaiola depois de viver preso a si mesmo. Porém, ao longo destes anos, fui entendendo que ser ansioso é travar uma batalha diária consigo mesmo e muitas vezes iremos fraquejar e perder esta guerra.

A ansiedade é como aquele zumbido em volume mínimo que você não sabe da onde está vindo, mas sabe que existe e incomoda. Até um dia que o volume aumenta, o zumbido vira uma sirene, ecoa na sua cabeça, ensurdece e você para. A vida fica limitada à tal sirene ecoando na sua cabeça, enquanto você corre de um lado para o outro do labirinto tentando encontrar a saída, ou melhor, reencontrar a si mesmo. E nem sempre a gente acerta a saída de primeira, muito menos na segunda, ou na terceira. Por isso, reconhecer que você tem um problema e buscar ajuda para encontrar o caminho de volta a si mesmo é essencial.

Durante estes anos, tive alguns picos de ansiedade aonde a sirene ecoou mais do que o normal, muitas vezes, sem nenhuma causa aparente, mais ou menos como Britney cantarola em Lucky: “If there’s nothing missing in my life, then why do these tears come at night?”. Mesmo quando as coisas parecem ir muito bem, obrigada, ela insiste em aparecer. Porque quem vive com a ansiedade não se acha merecedor o suficiente das coisas boas que acontecem na vida, sempre esperando a notícia ruim ou que o mundo vai ruir a qualquer momento. E daí a cobrança de não valorizar as pequenas e grandes conquistas. E assim por diante, como em um looping eterno.

Nos últimos 4 anos, eu ignorei os sinais porque oscilava entre momentos que eu me sentia confortável e tranquila e em outros, que a ansiedade ia para níveis estratosféricos justamente por me sentir uma fraude, por não me achar boa o suficiente, apenas aguardando o momento que uma bomba fosse cair no meu colo. Por alguns meses do ano passado, cheguei até a acreditar que enfim havia domado-a quando consegui emagrecer alguns kilos que tinha engordado nos dois anos anteriores e conseguido ficar 1 mês sem comer doces. Ensaiei voltar para a terapia, até conversei com alguns psicólogos, mas sempre arrumava uma desculpa diferente para mim mesma. Até que uns meses atrás, a tal sirene mental me paralisou e eu decidi que era hora de buscar ajuda para enfim parar com este quase auto-flagelo emocional.

A terapia, neste momento tem sido essencial para mim, mais do que na minha primeira crise de ansiedade 10 anos atrás. Se lá tive o alívio do diagnóstico, agora sei absorver melhor cada sessão. Acredito que a maturidade foi fundamental para aprender a confrontar meus próprios defeitos e também, os gatilhos que fazem as crises acontecerem ao invés de simplesmente ignorar que eles existem. Confrontá-los, inclusive, têm sido um exercício diário para mim. Me cobrar menos, ser mais gentil comigo mesma, me afastar e coisas/pessoas tóxicas e principalmente, entender que eu não posso controlar ou salvar o mundo. Em paralelo a isso, a meditação (obg tecnologia pelos apps de meditação guiada!) e os florais têm sido paliativos importantes neste processo enquanto não arrumo tempo suficiente para ter uma válvula de escape para descarregar a energia. Óbvio que ainda não encontrei a saída do labirinto, que tem momentos que fico perdida dentro dele, mas ao menos consigo ver a luz indicando a saída. Como diria Beth Ditto, “I have faced my fears now I can move in the right direction”.


Mais do que um desabafo, esse post é um desafio de me abrir mais (vejam, demorei DEZ anos para falar sobre isso no meu próprio blog!) e incentivar outras pessoas a buscarem ajuda. Precisamos falar sobre ansiedade, desmistificar os transtornos mentais e entender que saúde mental é tão importante quanto a física. Não precisa me desejar melhoras -estou ótima (de verdade!), aprendendo a domesticar meus próprios demônios e sei que a cada dia que passa, serei a melhor versão de mim mesma. Ninguém precisa viver com nó na garganta e aperto no peito. De verdade, a gente não merece viver assim.

Se você tem um amigo que está apresentando indícios de ansiedade, incentive-o a começar a terapia. Se você está passando por isso, lembre-se: você não está sozinho. Busque ajuda. A gente sabe que terapia ainda não é uma coisa acessível para todos, mas alguns convênios já oferecem psicólogos na própria rede, outros dão um bom reembolso, além de lugares que atendem por um preço mais acessível. E se quiser conversar, me manda um e-mail, deixa aqui nos comentários –juntos, nos fortalecemos <3.

Don’t be a drag, just be a queen

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Eu já sofri algum tipo de discriminação. Aquele seu colega de trabalho também. E você provavelmente também. Todos nós já sofremos com algum tipo de discriminação em algum momento da nossa vida, em menor ou maior proporção, mas difí­cil encontrar uma pessoa que não tenha sido alvo de piadinhas maldosas dos colegas na infí¢ncia, adolescência e em alguns casos, até na vida adulta. Pode ser desde um simples xingamento, uma ofensa, um comentário que faça você sentir menor, uma brincadeira de mal gosto. Há quem até foi perseguido e humilhado, sofreu bullying. E o motivo não importa: quem pratica este ato no mí­nimo covarde, tem os respectivos apelidos na ponta da lingua e as armadilhas estrategicamente preparadas. Basta você ser um pouco diferente do que ele julga “normal” (veja bem, no olhar de quem pratica o ato) para se sentir no direito de apontar o dedo e julgar o outro. Se você é gordinha(o), é a baleia. Se você é magra(o) é o palito de dente. Se você tem o nariz avantajado, você é primo do tucano. Se você é alta(o), lançam aquelas piadinhas no ní­vel “tá frio aí­ em cima?” ou ainda, se você é prima(o) do Tropeço. Se você tem espinhas, Chokito. E se você é baixinho, é o famoso pintor de rodapé. Se você usa óculos, é o 4 olho. E ainda estou sendo leve, afinal, é daí­ pra pior. Isso sem citar o constrangimento, a humilhação, a dor de você se ver exposto e ao mesmo tempo indefeso. E a exclusão que o grupo faz com aquele que eles julgam “diferente”. Crescemos em uma sociedade em que é vivemos a base de rótulos, e qualquer rasgo que destoe seu rótulo dos demais é o suficiente para que você seja motivo de chacota. Mas não espere ler nos próximos parágrafos dicas de como melhorar sua auto-estima, não ligar para o que as pessoas dizem ao seu respeito ou ainda pagar de psicologia barata. Este post tem outro propósito -e você vai entender ali no final.

Nunca na história desse paí­s (e quiçá, do mundo) temos visto tais ofensas e o bullying sendo abordado de uma maneira tão massiva. Sempre quando eu me deparo com uma capa de uma dessas grandes revistas semanais ou ainda com a chamada de uma matéria especial em programas do porte de um Fantástico, fico me perguntando: será que só agora que se deram conta do quanto esses “apelidinhos” e a perseguição está longe de ser uma brincadeirinha de criança e pode deixar grandes cicatrizes para uma vida inteira?

Vejo casos como dos gays que são espancados na região da Paulista e da transexual espancada no banheiro do MC Donalds nos EUA e fico me perguntando se esses adultos não teriam se tornado mais tolerantes ao diferente se pais, professores e diretores das escolas não tivessem visto os atos de covardia praticados por eles nos colégios como “coisa tí­pica de criança” -quem, quando criança, nunca ouviu isso da boca de um adulto que atire a primeira pedra. Por outro lado, temos que engolir seco casos como do atirador de Realengo sendo justificado por parte da imprensa como “vingança porque sofreu bullying no colégio” e não como uma pessoa que tinha problemas mentais, afinal de contas, ser ofendido de alguma maneira ou sofrer bullying ainda não é licença para matar e muito menos te faz um assassino em potencial né?

Escrevi tudo isso porque talvez essa seja a primeira vez que você se identifique de fato com a Lady Gaga. í‰, porque por trás dos looks bizarros e dos body modifications existe uma pessoa como eu e você, que também já foi alvo de piadas do colégio e ainda sente os reflexos dessa perseguição. O depoimento, feito no backstage de um show da cantora para um documentário produzido pela HBO, mostra uma Lady Gaga triste e insegura, dizendo frases como “eu ainda me sinto uma adolescente perdedora do ensino médio” e falando sobre a cobrança que tem com si mesma de ser manter forte para servir como um exemplo de superação para seus fãs.

Convido você, amigo leitor, a se despir de qualquer pre-conceito ou opinião formada que você tenha sobre ela e assista este ví­deo:

Não importa se você acha a bizarra, extravagante ou fantástica: é impossí­vel não se comover ou se emocionar com o depoimento de Stefani Germanotta, a Lady Gaga sem maquiagem, próteses, botas de plataforma ou qualquer outro item marcante de seu figurino. E descobrir que apesar de diferente, ela tem tantas fraquezas como eu e você.

Bem vinda ao clube, Lady Gaga. Aqui todo mundo foi considerado loser uma vez na vida, mas o que importa é passar por cima de tudo isso e sambar na cara deles. Go girl!