despedida

Não aprendi a dizer adeus

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Taí­ uma das coisas que eu não consigo aprender: dar o último adeus. í‰ uma daquelas coisas que nós deveriamos nascer sabendo afinal, a morte é a única certeza da nossa vida. E confesso que mesmo sendo de uma religião que acredita na vida após a morte, não consigo aceitá-la de uma forma tão fácil. Para ser sincera, é muito difí­cil aceitar que o melhor para ela é o pior para mim, e vice-versa. Pode ser um sentimento um pouco egoista e até mesmo angustiante querer que as pessoas e bichos vivam para todo o sempre, prolongar um sofrimento, mas na real gostaria que todo mundo fosse imortal ou pelo menos programado para morrer todos num mesmo dia, num mesmo momento, assim, ninguém sofreria. A verdade é que ninguém quer aprender a dizer adeus, mas tem aqueles que aceitam de uma forma menos dolorida e outros que aceitam a duras penas -e eu sou dessas. Como bem definiu minha grande amiga Tieli: “o amor tem dessas, provas insuportavelmente dolorosas de sua existência”.

Desde quando soube do diagnóstico da Jully, perdi a paz, o sono, a calma. Alguns podem pensar “ah, mas ela é só um cachorro, logo você arruma outro” mas para mim ela sempre foi muito mais do que um simples bicho: foi minha companheira de todas as horas, minha confidente, minha escudeira mais fiel. Nunca vou esquecer que mesmo mal conseguindo andar de dor nos seus últimos dias de vida ela ia atrás de mim aonde quer que eu fosse. Esses dias deixei-a acomodada na caminha dela na sala e subi para pegar uma coisa no meu quarto, e quando eu olho, ela havia subido a escada e ido atrás de mim. Isso sim pra mim é fidelidade e companherismo, uma demonstração de amor incondicional, sentimentos cada vez mais raros entre as pessoas.

Nesses últimos dias de vida, procurei demonstrar todo o amor que eu sinto por ela e o quanto ela foi especial na minha vida e da minha famí­lia. Doia saber que ao sair de manhã, aquela poderia ser a última lambida na mão que eu ganharia, o último carinho que eu daria nela. Saia de casa sempre com a impressão que aquela era minha despedida dela e por isso, procurei abrir mão de alguns minutos a mais de sono para ficar com ela. Deixava de sair aos finais de semana, programas com os amigos depois do trabalho… tudo para viver meus últimos momentos com ela.

Que saudades vou sentir dos dias que eu saia correndo do trabalho só pensando em chegar em casa para vê-la, das vezes que eu saia correndo atrás dela pela casa numa brincadeira tipo pega-pega, das vezes que ela me acordava lambendo aos finais de semana como se quisesse dizer “olha o céu lindo lá fora, vem viver esse dia comigo”.

Hoje, chegando do trabalho, ela foi me esperar na porta de casa, muito fraquinha, mas ainda com o rabinho abanando. Pouco depois, deu aquela que foi sua última lambida. E meia-hora depois ela partiu, em meus braços. Nessa hora, um filme passou pela minha cabeça e ao final dele, só consegui pedir para que Deus fizesse o que fosse melhor não para mim, mas para ela. E foi assim, que ela pode descansar em paz.

í‰ difí­cil de aceitar que minha companheira de 15 anos partiu, reencontrou com a Belly, minha outra cadelinha que morreu em 2007, e virou um anjinho de 4 patas. Estou tentando aceitar, é um processo dolorido. Mas tenho certeza que ela está pulando de nuvem em nuvem, procurando a mais alta e fofinha para deitar, assim como as almofadas que ela procurava aqui em casa, e olhar para a gente aqui na terra.

Obrigada por ter feito com que esses 15 anos fossem maravilhosos. Obrigada por ter me ensinado o verdadeiro significado da palavra amor e de sentimentos como companherismo e lealdade. Você se foi, mas tudo que você me ensinou nesse tempo vai ficar aqui comigo.

í‰ pequena… você vai fazer muita falta, muita. Que Deus, São Francisco e os anjos te recebam aí­ no céu dos animais e que você possa olhar por nós aqui na terra. E que fique registrado aqui minha última homenagem a você, que foi tão importante para a minha vida e da nossa famí­lia.

“Stay, don’t leave me, the stars can wait for your sign” Goodnight, Travel Well – The Killers

Te amo incondicionalmente. E isso não muda nunca mais.

UPDATE: 29/06

Não tenho palavras para agradecer todo o carinho, apoio e força que vocês vem me dando. Era pra ser só um post-homenagem, mas percebi que muitos se identificaram por terem passado por uma situação como a minha ou ainda, temem passar. A dor ainda continua, o vazio também. Foi estranho acordar e ver a casa vazia, não ter a companhia dela no café da manhã ou minha lambida de bom dia antes de sair para “trabalhar e comprar a raçãozinha” como eu repetia todas as manhãs. Mais estranho ainda foi chegar do trabalho e não vê-la para dar um beijo. Aos poucos a dor vai passando, vai dando lugar a saudade. Mas tenho certeza que Jully está descansando nas nuvens junto com a Belly e perto de mim de alguma forma.

Gostaria de agradecer a todo mundo pelas mensagens, dos amigos que sempre acompanharam nossa história de companherismo aos que visitaram pela primeira vez o blog e se sensibilizaram com a história. Cada palavra dita por vocês tem me ajudado a superar esse momento doloroso e até arrancado alguns sorrisos em meio a tantas lágrimas.

Muito, muito, muito obrigada mesmo <3