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Moda, o “must have”, consumismo e nossa falta de estilo

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Sempre fui o tipo de pessoa apaixonada por moda, e isso é desde que eu me entendo por gente. Lembro que ainda pequena, preferia ganhar roupas e sapatos í  bonecas e brinquedos. Barbie? Só se fosse para ir nas feirinhas hippies e comprar roupas novas para vesti-las.

Na adolescência, não tinha Internet e meu único meio de me informar das “tendências” era pelas revistas mesmo. Aprendi com a minha tia, que também sempre gostou de moda e chegou até a ter uma confecção, a montar uma pasta com recortes para ter como referência das peças que eu gostaria de ter no meu guarda-roupa. E vou além: confesso que até cogitei fazer faculdade de moda, e se as coisas aqui no Brasil não fossem tão complicadas, talvez tivesse feito já que meu primeiro sonho dourado, o de fazer veterinária, deixei de lado por causa da minha zero vocação para qualquer coisa que envolva sangue e corpos.

Os anos passaram e o acesso í  informação de moda, bem como seu consumo, se tornou algo extremamente democrático e acessí­vel graças a Internet. Se antes demorávamos a próxima edição da revista após uma semana de moda para saber o que seria tendência na temporada seguinte, hoje essa informação é quase instantí¢nea: acaba o desfile e alguns minutos depois, já tem alguma resenha das apostas que veremos em vitrines e araras em alguns meses. Tão rápido quanto o acesso a informação, é a disponibilidade das tendências. Se até uns dois anos atrás demorávamos meses para ter uma peça que virou moda na gringa, hoje é coisa de semanas, quando não dias ”“tá aí­ a Zara que não me deixa mentir. E tem para todos os gostos, bolsos e (nem sempre para não dizer nunca) tamanhos.

MASSIFICAí‡íƒO DA MODA E A FALTA DE ESTILO: PQ DEIXAMOS DE SER Ní“S MESMOS?

A verdade é que ao mesmo tempo que eu comemoro essa democratização do acesso a “informação” de moda e o fácil acesso í  essas tendências, afinal, todo mundo tem direito de se vestir bem, tenho me sentido na contra-mão de tudo isso. Acho que nunca me senti tão bodiada de moda, não me importando qual é a tendência da vez ou qual é a peça must-have do momento. Sabe aquela sensação de quando você vai í s compras, olha todas as lojas e não encontra nada com a sua cara? í‰ assim que eu me sinto com a moda atual, mas o tempo todo. Dessas últimas “tendências”, confesso que as últimas identificaçíµes que rolaram foi essa coisa meio rockinho, meio glam com muita roupa preta, cinza, jeans, couro, ombreiras, xadrez, camisetas surradinhas e brilho, mesmo porque grande parte já fazia parte do meu estilo desde sempre -e são temas dos poucos posts de moda aqui do blog.

Não sei vocês, mas eu tenho a necessidade de tudo, quando possí­vel, ser do meu jeito, ter minha cara. E com meu guarda-roupa, não poderia ser diferente. Não é a toa que vira e mexe algum amigo fala “nossa, vi uma blusa x que era sua cara” ou “tem um sapato em tal loja que você iria amar”, e olha vou te falar que eu adoro isso. Digo isso porque tenho observado que cada vez mais as pessoas estão perdendo seu estilo, sua identidade fashion. Não basta gostar de uma peça, se identificar com ela: TEM QUE ser tendência, TEM QUE estar na moda, TEM QUE ter no guarda-roupa porque é must have. Mas cadê o estilo? Aquela brincadeira de se vestir de acordo com humor? Para ser alguém de fato preciso me vestir com o que a moda diz? Cadê o livre arbí­trio de poder me vestir da forma com que combina mais comigo? Para mim, o mundo fashion virou um grande depósito de vasos, com todos andando com as mesmas roupas, obedecendo um mesmo estilo.

Outro bode que eu ando da moda é essa onda de re-batismo das peças. Aquela calça boca-de-sino que nossas mães usaram na década de 70 virou flare -e não venham me dizer que ela é menos ampla do que a que sua antecessora porque não me convence de que é só uma versão revisitada para se adaptar facilmente a moda atual. Belt Purse para mim é puro e simples eufemismo da cafona pochete só para você não ser xoxado pelos amigos ”“e não, não tem Louis Vuitton que me faça usar essa coisa cafona. Rasteirinhas e sapatilhas viraram flats e o salto anabela, Wedge. Também tem as clutches, que na minha época eram chamadas de bolsas de mão ou carteira. Isso porque nem entrei nos méritos das coisas que a pouco tempo eram julgadas como cafonas e over e agora são hypadas, como os óculos com lentes espelhadas -não tem modismo que me faça achar aquilo bonito, sério.

PELO DESEJO DE ACORDAR TODOS OS DIAS E ESCOLHER UMA ROUPA PELO MOOD DO MOMENTO

Faço todas essas indagaçíµes e nem é só por essa onda fashion victims, mas principalmente para as lojas. Antes nós torcí­amos para que as “tendências” chegassem logo até nós a preços mais amigos. Já hoje, temos esse acesso quase que imediato como eu disse ali em cima, mas não encontramos nada além do que a “principal” tendência. Não existe a opção de estilos ou pelo básico, só os extremos: ou você vai encontrar o último grito da moda da última semana ou aquela roupa com cara de senhora, que ficaria ótima para sua bisavó. Não existe um meio termo. Desafio você, caro leitor, a ir em uma dessas lojas e voltar com um jeans com lavagem tradicional e corte reto e uma camiseta branca lisa, peças consideradas por anos como item básico para se ter no guarda-roupa. Se você achar, por favor, compartilhe comigo, porque para mim virou artigo em extinção.

Tudo isso não me fez deixar de gostar de moda, mas acho que passei a encará-la de uma forma mais rí­gida e dura. Peguei bode das peças da moda, preguiça de acompanhar as tendências. Semanas de moda? Só acompanho por pura obrigação profissional afinal, mesmo que o blog não fale mais sobre moda de maneira direta, trabalho em um site que fala justamente sobre o assunto, mas deixei de acompanhar por curiosidade, paixão por moda. Por algum tempo tentei acompanhar lendo e consumindo este tipo de conteúdo de forma mais pessoal, mas confesso que não é para mim. Eu preciso escolher aquilo que combina comigo de verdade e por isso, voltei ao ponto inicial de sair colhendo referências, não mais em revistas ou sites, mas muito mais no que eu vejo em algumas lojas, nas ruas e do meu humor.

Enquanto admiradora da moda, acho triste ver que a democratização não despertou o interesse e a valorização da diversidade fashion, mas só um desespero pelo consumo e a zero preocupação pelo estilo e pela liberdade de ser você mesmo.

Fica aqui meu convite, nessas semanas aonde araras serão tomadas pelas “apostas” do outono/inverno que você pense duas vezes antes de comprar uma peça com a justificativa do “must have”, e invista naquilo que traduza o seu estilo e o que você é de verdade. Porque como já diria a Pitty: “o importante é ser você, mesmo que seja bizarro”.

PS: leitura recomendada dos dois posts da Lia sobre livros de estilo. Já li alguns deles, e acho bacana para abrir um pouco a mente e também conhecer mais sobre seu guarda-roupa e gostos em uma época que nós somos tão bombardeados de informaçíµes e tentaçíµes :)